segunda-feira, 31 de outubro de 2022

 No Jardim da Estrela, onde não consigo passar sem pensar em certas horas da minha infância nos alvores da adolescência. (Um ano praticamente sem almoçar, após partir o termo que manteria o almoço morno, deitando fora consecutivamente a comida fria que trazia de casa). As verdadeiras batalhas, na sequências de grandes desafios de futebol no intervalo da hora do almoço em que éramos fechados e abandonados no recinto da escola, com pedras da calçada voando como setas que era preciso evitar mas que podiam atingir, e atingiam, um companheiro ao lado. A formação em coluna dois a dois que atravessava o jardim para ir para as actividades de milícia fascista no edifício sede: fui a primeira vez, serviu-me de reconhecimento. À segunda, numa das curvas do serpeante percurso deixei seguir a coluna e tergiversei para o lado oposto: esqueceram-se de mim, deixei de existir, deixei de pertencer ao número dos arregimentados. E a pena era de chumbar o ano se fosse descoberto!

Também desse ano faz parte a minha estreia a voar na esteia de um carro eléctrico evitando o cobrador e poupando uns cobres para a compra de uma bola de plástico na fábrica que as produzia e que só aguentava um único dia.

A dilatação do tempo! Como se fosse elástico e cada vez se tornasse mais fino, etéreo e efémero. Deixei de escrever como se tivesse deixado de lançar as redes ao mar e mesmo assim suspirasse por apanhar peixe...

 Saber que se para um preço alto é suficiente para nos dissuadir de avançar, mas o verdadeiro impedimento é a descrença no milagre. É preciso muita coragem para atravessar o fogo. Avançar, despindo-nos de tudo. Avançar mesmo que saibamos que após o fogo nos esperam as cinzas.

(Qui, 10 Junho  21)

Sempre! Uma palavra tão perigosa!...

Escorregadia... impossível de segurar na mão, (como um peixe húmido, acabado de retirar da água e que se nega a abandoná-la), assim também essa palavra se recusa a pertencer ao nosso mundo.

(incoercível, 25 de Abril de 2021)

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

 4 da manhã

O que é a insónia? Uma pedra no caminho dos sonhos, um cadáver na nossa cama, uma luz que não se apaga, um buraco no tempo onde sabemos que acabamos por cair exaustos. Uma ideia donde não conseguimos sair. Uma ideia fixa que não desiste de nós. Mas tudo se resume a uma estranha na cama.

Não se pode lutar directamente com ela: é a melhor forma de a manter de pé. 
É preciso desistir para que ela desista de nós.

O que fica é o escrito, dizia-se. Pois será. Mas isso é coisa do futuro. Agora, que é quando o tempo existe, só posso meditar no que tantas vezes dizemos para nós mesmos: estava escrito e isso dá às coisas a força das coisas fatais. 

A morte da minha avó

contada pela minha mãe

ela estava deitada

como uma pedra

sobre um cordel

quando chegou ao pé dela

quis dizer alguma coisa.

Foi humilhada. A minha avó

pegou-lhe no pulso e

obrigou-a a deitar-se a seu lado

só a largou quando

já tinha abandonado este mundo.



(A partir das Flautas no Canavial)

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

 "Gostas da minha praia?", perguntou a miúda à mãe, mostrando-lhe o desenho que fizera.


Voltei ao lugar do desenho

a mesa tinha mudado de sítio

o ângulo era diferente

já não existiam zonas iluminadas

tudo estava envolto na luz uniforme

do crepúsculo.


Deparei-me com um turista esfíngico

sentado ao computador

obnubilando a tomada de vistas

que tinha utilizado


Mesmo assim gravei a cena

para me servir de bengala

e para poder acabar o que tinha

começado


Nunca mais, se tiver que o interromper,

deixarei de registar o local do crime

antes de o abandonar.



  (Cinemateca, 15 de Outubro de 2021)