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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Olhos

Estimados olhos meus, vocês não estão nada bem.

Dão-me um desenho pouco nítido,

Com cores desbotadas.

No entanto, vocês eram a matilha de reais cães de caça

Com que outrora eu saía de manhã.

Vorazes olhos meus, vocês viram tantos

Países e cidades, ilhas e oceanos.

Saudavam comigo as sumptuosas alvoradas

Quando a respiração profunda convidava a correr

Pelas veredas onde o orvalho se secava.

Tudo o que viram está agora dentro de mim,

Transformado em memória ou sonhos.

A pouco e pouco vou-me afastando da feira do mundo

E descubro em mim uma certa aversão

À roupa amacacada, à gritaria e ao ressoar dos tambores.

Que alívio. A sós com os meus pensamentos

Acerca da semelhança básica entre os homens

E acerca do pequeno grão de dessemelhança.

Sem olhos, contemplando um ponto luminoso

Que se amplia e me envolve.

Onde quer que esteja

Onde quer que esteja, em qualquer lugar

na Terra, escondo dos outros a certeza de

que n ã o s o u d a q u i.

Como se tivesse sido enviado para absorver

o máximo das cores, sons, cheiros, sabores,

provar de tudo o que é

reservado ao Homem, converter o vivido

num registo mágico e levá-lo para lá, de onde

parti.