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terça-feira, 10 de janeiro de 2012


No teu amor por mim há uma rua que começa
nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Na estrada
Tímido e audacioso
(como com o sol pela frente
E um camião por detrás)
A vida é um encontro,
A morte um desencontro,
Ou, pelo contrário,
A morte será um encontrão?
Um poema é
Um jogo de espelhos

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Olhos

Estimados olhos meus, vocês não estão nada bem.

Dão-me um desenho pouco nítido,

Com cores desbotadas.

No entanto, vocês eram a matilha de reais cães de caça

Com que outrora eu saía de manhã.

Vorazes olhos meus, vocês viram tantos

Países e cidades, ilhas e oceanos.

Saudavam comigo as sumptuosas alvoradas

Quando a respiração profunda convidava a correr

Pelas veredas onde o orvalho se secava.

Tudo o que viram está agora dentro de mim,

Transformado em memória ou sonhos.

A pouco e pouco vou-me afastando da feira do mundo

E descubro em mim uma certa aversão

À roupa amacacada, à gritaria e ao ressoar dos tambores.

Que alívio. A sós com os meus pensamentos

Acerca da semelhança básica entre os homens

E acerca do pequeno grão de dessemelhança.

Sem olhos, contemplando um ponto luminoso

Que se amplia e me envolve.

Onde quer que esteja

Onde quer que esteja, em qualquer lugar

na Terra, escondo dos outros a certeza de

que n ã o s o u d a q u i.

Como se tivesse sido enviado para absorver

o máximo das cores, sons, cheiros, sabores,

provar de tudo o que é

reservado ao Homem, converter o vivido

num registo mágico e levá-lo para lá, de onde

parti.

Nada duas vezes

Duas vezes nada acontece
nem acontecerá. E assim sendo,
nascemos sem prática
e sem rotina vamos morrendo.

Nesta escola que é o mundo,
mesmo os piores
nunca repetirão
nenhum Inverno, nenhum Verão.

Os dias não podem ser repetidos,
não há duas noites iguais,
não há dois beijos parecidos,
não se troca o mesmo olhar.

Ontem, o teu nome
em voz alta pronunciado
foi como se uma rosa
me tivessem atirado.

Hoje, ao teu lado
voltei a cara para a parede.
Rosa? O que é uma rosa?
Será flor? Talvez rocha?

Porque tu, ó má hora,
me trazes a vã tristeza?
Se és, tens que passar.
Passarás -- daí a tua beleza.

Abraçados, enlevados,
tentaremos vencer a mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas de água.


sábado, 11 de dezembro de 2010

De "Boca Incompleta", de António Ramos Rosa

Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar

Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto com a liberdade de nascer com as palavras
e nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável

Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessìvelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial onde se inscrevem os sinais

Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de'irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco

Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue

Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar










quarta-feira, 23 de setembro de 2009



Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava --

Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Cristina Campo