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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Mongólia. Fui ver a Mongólia através dos olhos de Ulrike Ottinger. A planície verde. Os majestosos cabeços redondos. Os garranos convivendo com os camelos. As cores!!!

O outro mundo.

(sex, 22 Out 21)

Estou mesmo na terra de ninguém; as velhas sedentas de amor, já em pânico pela vertigem do fim e que sabem que tudo está destinado à derrocada: depois da devastação do tempo são mais objecto da fraternidade do que do desejo. As jovens, atraentes e desejáveis, mas carregadas de ilusões e entraves, sequiosas de bem-estar, segurança e... futuro. No presente, que é o que interessa, não há ninguém.
Para ter uma vida que mereça ser vivida é preciso ter coragem.
Escrevo para falar com alguém.

(Qui, 21 Out 21)

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A dilatação do tempo! Como se fosse elástico e cada vez se tornasse mais fino, etéreo e efémero. Deixei de escrever como se tivesse deixado de lançar as redes ao mar e mesmo assim suspirasse por apanhar peixe...

 Saber que se para um preço alto é suficiente para nos dissuadir de avançar, mas o verdadeiro impedimento é a descrença no milagre. É preciso muita coragem para atravessar o fogo. Avançar, despindo-nos de tudo. Avançar mesmo que saibamos que após o fogo nos esperam as cinzas.

(Qui, 10 Junho  21)

Sempre! Uma palavra tão perigosa!...

Escorregadia... impossível de segurar na mão, (como um peixe húmido, acabado de retirar da água e que se nega a abandoná-la), assim também essa palavra se recusa a pertencer ao nosso mundo.

(incoercível, 25 de Abril de 2021)

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

 "Gostas da minha praia?", perguntou a miúda à mãe, mostrando-lhe o desenho que fizera.


Voltei ao lugar do desenho

a mesa tinha mudado de sítio

o ângulo era diferente

já não existiam zonas iluminadas

tudo estava envolto na luz uniforme

do crepúsculo.


Deparei-me com um turista esfíngico

sentado ao computador

obnubilando a tomada de vistas

que tinha utilizado


Mesmo assim gravei a cena

para me servir de bengala

e para poder acabar o que tinha

começado


Nunca mais, se tiver que o interromper,

deixarei de registar o local do crime

antes de o abandonar.



  (Cinemateca, 15 de Outubro de 2021)

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Procuro uma mesa para escrever como quem, morto de sede, procura uma fonte ou: como o náufrago procura a tábua que o mantenha à tona.

Estou doente: talvez a pena possa travar o alastrar da loucura do corpo e da mente. As outras fugas têm-se revelado, não um travão mas uma aceleração. Sobretudo do tempo que se some.

Nestes múltiplos caminhos sem saída um há que sendo uma fuga para a frente é uma tergiversação da evasão onírica da leitura: a compra compulsiva de livros que não leio por falta de tempo ele oportunidade limitando-me a aumentar o seu stock iludindo-me como se comprasse o tempo da sua leitura ao mesmo tempo que o livro.

Outro caminho em falso consiste em perder -- sobretudo, mas não só -- coisas. No aperfeiçoamento dessa arte joga forte o brincar às escondidas onde raramente se surpreende o que o destino fez desaparecer.

(...) Desse clima rarefeito (onde se reconhecem afinidades) fazem também parte as coincidências, tramas que constituem o enredo em que vivemos, tanto mais numerosas quando mais atentos estivermos. E dentro desses estados de consciência alterada fazem ainda parte o delírio -- que pressupõe um discurso -- e a visão. A imaginação a partir de um pretexto real pode conduzir aos domínios do sonho com a facilidade com que um sopro incendeia uma brasa mortiça.

Não temos o direito de arranjar companhia para uma viagem suicida.

Os rapazes da minha idade estão velhos. são jovens envelhecidos; por isso os reconheço. 

Todas as caras são um livro. E uma multidão uma biblioteca.

                                                                                                                                

                                                                                                                             (8 de Janeiro de 2020)

 Viver é morrer.

Fui ver um filme em que na acção, entremeada, havia uma cena em que a personagem adormecia. Por fim não se conseguia distingir o que era a realidade ou o sonho da personagem: talvez fosse essa a tese do filme.

                                                                                                                    (6 de Janeiro de 2020)

segunda-feira, 18 de julho de 2022

 Tempos ásperos:

O sono aos sacões, cheio de bruscas interrupções, a vigília submersa por um quase sonambulismo. Um cansaço constante dado que o descanso é esparso. Tudo pela vida sem arrumação e pelas rotinas desfeitas pelo vórtice dos dias sempre iguais. Sobretudo a falta de um propósito, como de uma mão no leme. O sentimento de um tempo irrecuperável e sempre e só o refrigério da arte, da escrita, tendo sempre presente a definição de Beckett de que 'A arte é a apoteose da solidão'.

Ainda me perguntam porque escrevo? As palavras reencontradas após uma longa ausência são uma bóia de salvação, pedras do caminho e única garantia contra a perdição.


(Ter 19/07/22)