Mongólia. Fui ver a Mongólia através dos olhos de Ulrike Ottinger. A planície verde. Os majestosos cabeços redondos. Os garranos convivendo com os camelos. As cores!!!
O outro mundo.
(sex, 22 Out 21)
A dilatação do tempo! Como se fosse elástico e cada vez se tornasse mais fino, etéreo e efémero. Deixei de escrever como se tivesse deixado de lançar as redes ao mar e mesmo assim suspirasse por apanhar peixe...
Saber que se para um preço alto é suficiente para nos dissuadir de avançar, mas o verdadeiro impedimento é a descrença no milagre. É preciso muita coragem para atravessar o fogo. Avançar, despindo-nos de tudo. Avançar mesmo que saibamos que após o fogo nos esperam as cinzas.
(Qui, 10 Junho 21)
Voltei ao lugar do desenho
a mesa tinha mudado de sítio
o ângulo era diferente
já não existiam zonas iluminadas
tudo estava envolto na luz uniforme
do crepúsculo.
Deparei-me com um turista esfíngico
sentado ao computador
obnubilando a tomada de vistas
que tinha utilizado
Mesmo assim gravei a cena
para me servir de bengala
e para poder acabar o que tinha
começado
Nunca mais, se tiver que o interromper,
deixarei de registar o local do crime
antes de o abandonar.
(Cinemateca, 15 de Outubro de 2021)
Procuro uma mesa para escrever como quem, morto de sede, procura uma fonte ou: como o náufrago procura a tábua que o mantenha à tona.
Estou doente: talvez a pena possa travar o alastrar da loucura do corpo e da mente. As outras fugas têm-se revelado, não um travão mas uma aceleração. Sobretudo do tempo que se some.
Nestes múltiplos caminhos sem saída um há que sendo uma fuga para a frente é uma tergiversação da evasão onírica da leitura: a compra compulsiva de livros que não leio por falta de tempo ele oportunidade limitando-me a aumentar o seu stock iludindo-me como se comprasse o tempo da sua leitura ao mesmo tempo que o livro.
Outro caminho em falso consiste em perder -- sobretudo, mas não só -- coisas. No aperfeiçoamento dessa arte joga forte o brincar às escondidas onde raramente se surpreende o que o destino fez desaparecer.
(...) Desse clima rarefeito (onde se reconhecem afinidades) fazem também parte as coincidências, tramas que constituem o enredo em que vivemos, tanto mais numerosas quando mais atentos estivermos. E dentro desses estados de consciência alterada fazem ainda parte o delírio -- que pressupõe um discurso -- e a visão. A imaginação a partir de um pretexto real pode conduzir aos domínios do sonho com a facilidade com que um sopro incendeia uma brasa mortiça.
Não temos o direito de arranjar companhia para uma viagem suicida.
Os rapazes da minha idade estão velhos. são jovens envelhecidos; por isso os reconheço.
Todas as caras são um livro. E uma multidão uma biblioteca.
(8 de Janeiro de 2020)
Tempos ásperos:
O sono aos sacões, cheio de bruscas interrupções, a vigília submersa por um quase sonambulismo. Um cansaço constante dado que o descanso é esparso. Tudo pela vida sem arrumação e pelas rotinas desfeitas pelo vórtice dos dias sempre iguais. Sobretudo a falta de um propósito, como de uma mão no leme. O sentimento de um tempo irrecuperável e sempre e só o refrigério da arte, da escrita, tendo sempre presente a definição de Beckett de que 'A arte é a apoteose da solidão'.
Ainda me perguntam porque escrevo? As palavras reencontradas após uma longa ausência são uma bóia de salvação, pedras do caminho e única garantia contra a perdição.
(Ter 19/07/22)